O OUTRO, SEMPRE O OUTRO

O OUTRO, SEMPRE O OUTRO

Alguém diz: fecha os olhos, baixa um pouco a tua cabeça. Uma risadinha interna faz a gente ironizar, questionando se todo momento de oração realmente precisa seguir essa sequência tosca. Levanta os braços, agora põe a mão no teu coração. Amém? Uma outra risadinha interna provoca: é, o pessoal da Igreja parece não ter criatividade. Interessante a crítica que surge em nosso coração. 

Julgamos que o outro não é autêntico o suficiente, que sua fala parece falsa e repetitiva, mas somos omissos na evangelização. O outro, sempre o outro. Motivo de tantos afastamentos. O outro fofoqueiro, o outro mentiroso, o outro que não tem humildade. O outro que se acha dono da pastoral, que é bajulador do padre, que fala de amor mas vive o ódio. Nossa preguiça de mudar algo nos oferece o caminho mais fácil: a separação. Higiene da fé! Ouvindo a Dona Florinda gritar: não se misture com essa gentalha, tesouro! Obedeço, confirmando minha imaturidade, dou meia volta e saio. Desprezo. Pois sou tão amoroso, tão bom, gosto tanto de ajudar as pessoas, que não sou capaz de me misturar com quem não presta! 

Que engano, meu Deus, que engano. Se os pecadores não estiverem na Igreja, onde estarão? Lá é o melhor lugar para quem precisa de transformação. É, sem dúvidas, a melhor chance. Só que prefiro cancelar, fugir, deixar de lado. É o papo de fazer o bem em outro espaço, sobretudo aos mais necessitados, pois a paróquia ou comunidade já não merece minha ilustre presença. Para esclarecer: ser solidário é ótimo, só não pode ser sinal de desistência do outro irmão, aquele que considero ruim. Porque esse, o ruim, malvado, arrogante, manipulador, carente e vaidoso, é quem mais precisa de amor. É quem mais precisa receber essa noção que você já tem, para que possa construir seu próprio senso crítico e autenticidade em Deus. 

Toda alma é preciosa. Não fale de amor ao próximo se você, declaradamente, não acredita que alguém pode mudar. Evangelização é acreditar que Deus tudo pode, em todos. Conversão é para todo mundo, de maneiras e ritmos diferentes. É preciso vida interior, urgente! Encontrar na oração a resposta de Deus, a paz para conseguirmos cuidar de quem não merece.