AMANHÃ

AMANHÃ

A gente vai dormir sem saber o que será. Na rotina, o amanhã aparece como uma ideia quase pronta, um repertório de compromissos feitos com o tédio ou a inspiração. A gente vai dormir sem imaginar que, em uma fração de segundos, tudo pode mudar, dissolver, deixar de existir. Perder importância ou tornar-se sentido verdadeiro. 

Vaidosamente ignoramos o óbvio da nossa pequenez, aí a dor do não saber sufoca a inteligência que pensamos possuir. O não saber apavora. O não saber questiona. Acelera na gente uma sensação estranha de contradição, que em um primeiro momento parece bloquear, mas em seguida abre um cenário de inúmeras possibilidades. Essa angústia sem nome, sem forma ou definição, é um desencaixe. 

Quando se reza, algo parece iluminar, encontrar espaço, sei lá. Não responde o que acontecerá amanhã, não se trata de previsão ou de uma adivinhação que resolve ansiedade. É mergulho em uma dimensão profética da vida, que declara pelo sangue do Cordeiro Imolado: a vida não é uma mentira cheia de engrenagens cotidianas, ela tem sentido. Não é só trabalho, estudo, família, engajamento na Igreja. É maior, sabe? É tão maior. Que desespera por não caber em um texto, mas no mesmo segundo acalma por definir-se infinito.

Quero rezar, Senhor. Ou, pelo menos, quero querer rezar. Fazer uma experiência de amor, que jamais poderia acontecer pelo vigor das drogas, da pornografia, do egoísmo entranhado em mim. Da mágoa enganadora que afirma que estou sempre certo, do puritanismo hipócrita que ameaça meu coração.

A gente vai dormir sem saber o que será. Sem saber o texto que vai ler, sem saber a resposta que virá. Permanece essa tua presença, inalterável e eterna, que hoje quis me dizer com clareza: não é só o amanhã que pertence a Deus, sou eu.